PRÉ-MANIFESTO: SÃO PAULO É SOLO PRETO

O BRASIL É O PAÍS MAIS NEGRO FORA DO CONTINENTE AFRICANO. Somos uma nação atravessada econômica, política, social e psicologicamente pela experiência colonial que durou séculos de escravização de africanos, violentamente traficados. A raça foi uma invenção para justificar e concretizar um projeto de dominação. Não existe, portanto, cidadão que não reproduza de alguma forma o racismo que estrutura o capitalismo brasileiro hoje. Por isso, o movimento negro brasileiro tomou a tarefa de se rebelar contra essa estrutura. Desde o desembarque do primeiro africano traficado no país perdura um longo e complexo processo de resistência. Portanto, a problemática da raça é tensionada não apenas pelo racismo enquanto opressão, mas também pelo antirracismo enquanto prática.

SP É SOLO PRETO. Dotada de um violento processo de apagamento da memória negra e indígena, a cidade de São Paulo é hoje a cidade mais negra do país, em número absoluto. Vivem aqui mais de 4 milhões de negras e negros, mesmo com toda a gentrificação e higienização que persegue, mata e expulsa as populações racializadas cada vez para mais distante. A população negra foi a responsável por subir os prédios da cidade, mas sempre esteve às margens, inclusive nos tempos em que as margens eram o que hoje é o centro. Nossa história e nossos territórios foram embranquecidos. O Quilombo da Saracura, hoje é conhecido pelo Bixiga das cantinas italianas, a Barra Funda, do antigo Largo da Banana, berço do samba paulistano, é comumente retratada como o bairro dos operários europeus, mas nunca pela tradição afro-brasileira; a Liberdade, o pelourinho de São Paulo, tem seu nome, fruto da resistência abolicionista, apenas relacionado à cultura de alguns povos asiáticos ou mesmo o apagamento sobre a história negra no bairro do Jabaquara onde já existiu o “Quilombo da Passagem” no Sítio da Ressaca, território que sofreu em 1969 sua última desapropriação para a construção do metrô. Ao passo que a história do povo negro em São Paulo foi apagada, a memória histórica paulistana foi construída homenageando os algozes do nosso povo negro e indígena, como os bandeirantes, seja com estátuas – como as de Borba Gato no bairro de Santo Amaro, o monumento às Bandeiras no Parque Ibirapuera, a estátua de Anhanguera no parque Trianon – ou em nomes de ruas, como a Rua Jorge Velho, bandeirante que matou Zumbi dos Palmares. 

DEBATER MEMÓRIA É DEBATER A NOSSA VIDA CONCRETA. Refletir sobre as cidades que vivemos não é uma abstração. Ao contrário, é trazer à tona as histórias do povo que construiu e botou essa cidade de pé, mas que foi violentamente assassinado. Para que um genocídio se consolide, é necessário esquecê-lo. E para que uma violência estrutural permaneça, é necessário negá-la. A memória, portanto, é política. O pouco da história da escravidão e do racismo brasileiros que nos é contada vem como algo distante e pela visão dos opressores, sem associação com os dias de hoje. E o racismo, que forma a subjetividade de todos os brasileiros, é constantemente questionado pela ideologia da democracia racial – de que neste território, todas as raças convivem harmoniosamente. O resultado da negação dessa estrutura se revelam na realidade como ela é: a cada 23 minutos morre um jovem negro; 68% das mulheres assassinadas são negras; negros são 75% entre os mais pobres e brancos são 70% entre os mais ricos; 4% dos parlamentares brasileiros são negros; entre outras estatísticas lamentáveis para um país como o Brasil do século XXI.

A NOSSA LUTA É INCONTORNÁVEL, PERMANENTE E DEPENDE DE TODOS. Em 1978, nas escadarias do Theatro Municipal de São Paulo, o Movimento Negro Unificado lançava um manifesto denunciando a falsa abolição, o mito da democracia racial e pedindo o fim da violência policial. Esse episódio que aconteceu na nossa cidade, é um dos marcos na história da resistência do povo brasileiro e se insere dentro de uma agenda de lutas mais ampla do período, quando pensamos na resistência antirracista e anticolonial a nível internacional – desde os movimentos por libertação dos países africanos até a luta por direitos civis nos Estados Unidos. Essa luta histórica reverbera até hoje, tornando incontornável a pauta do racismo na sociedade, inclusive cada vez mais presente na grande mídia. Como a cidade de São Paulo se comporta diante de tal efervescência? Onde estão as estátuas, ruas, praças e prédios homenageando homens e mulheres negras e indígenas que enfrentaram seus opressores? Que lutaram contra o racismo e o machismo? Que construíram importantes invenções? Que escreveram importantes livros? Que são referência nas artes e na cultura? Como questiona a escritora nigeriana Chimamanda Adichie: Qual o perigo de uma história única? Repensar a nossa cidade e reivindicar a valorização e visibilidade da memória negra é lutar por uma cidade mais democrática. E essa responsabilidade é de todos e todas aqueles que sonham com uma cidade melhor. São Paulo é solo preto! SEJA PARTE DESSA LUTA! ASSINE O MANIFESTO!

O QUE QUEREMOS?

  1. Substituição de nomes de rua, avenidas e rodovias, imagens e símbolos da cidade que homenageiam escravocratas ou/e higienistas por referências históricas que marcam a luta, resistência e construção da cidade de São Paulo;
  2. Retirada e realocação de monumentos e estátuas que homenageiam escravocratas ou/e higienistas e substituição por referências históricas que marcam a luta, resistência e construção da cidade de São Paulo;
  3. Reconhecimento e tombamento como patrimônio histórico da cidade de territórios que carregam significados de luta e resistência em São Paulo como os Bairros do Bixiga, Barra Funda e Liberdade.

…Nós estamos além desse mapa, não cabemos na tua ampulheta, não vestimos tampouco esta roupa… 
Salve geral — Alafia

… Cada ligadura deste chão, ostenta orgulho e faz gente querer voar, Bela vista, bela vista, bela vista, onde 13 de maio não cruza com abolição, quilombo urbano de casarão em casarão, cada rachadura marginal desse sapato engraxado, alvinegro, debaixo do mais belo mestre sala, cada esquina esculachada que dá nome à redenção… 
Saracura — Alafia

Eu classifico São Paulo assim: O Palácio é a sala de visita. A Prefeitura é a sala de jantar e a cidade é o jardim. E a favela é o quintal onde jogam os lixos.
Carolina Maria de Jesus

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Obrigada! Vamos juntas!